20/01/2026 - 11:01
Governo britânico diz que “jamais comprometerá segurança nacional” após presidente dos EUA chamar cessão de ilhas no Oceano Índico de “grande estupidez”.O governo do Reino Unido se defendeu nesta terça-feira (20/01) das críticas do presidente dos EUA, Donald Trump, à entrega da soberania sobre o Arquipélago de Chagos para as ilhas Maurício, enfatizando que o acordo com a nação insular do Oceano Índico garante operações militares conjuntas entre Londres e Washington na ilha de Diego Garcia, a maior do arquipélago.
O Reino Unido “jamais comprometerá sua segurança nacional”, declarou um porta-voz do governo após Trump ter classificado o acordo firmado em 2025 para ceder a soberania e arrendar Diego Garcia por um período de 99 anos como “uma grande estupidez”.
Antes de embarcar para a Suíça para participar do Fórum Econômico Mundial em Davos, o presidente dos EUA afirmou em sua rede social Truth Social que a transferência de Chagos é um dos motivos de segurança nacional pelos quais seu país deveria assumir o controle da Groenlândia .
O porta-voz britânico enfatizou que o pacto garante uma base conjunta com os EUA por gerações, “com disposições robustas para manter intactas suas capacidades únicas e manter nossos adversários à distância”.
“O acordo foi recebido com entusiasmo pelos EUA, Austrália e todos os outros aliados dos Cinco Olhos (o grupo de inteligência composto por Reino Unido, EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia), bem como por importantes parceiros internacionais, como Índia, Japão e Coreia do Sul”, observou.
“Garantias de segurança muito importantes”
Anteriormente, Darren Jones, o secretário-chefe do primeiro-ministro britânico, disse à BBC que o acordo para a entrega de Chagos assegura ao Reino Unido “garantias de segurança muito importantes em relação ao funcionamento da ilha e dos mares circundantes. Esta é a maneira correta de garantir o futuro da ilha [Diego Garcia]”.
“A geopolítica está se tornando cada vez mais volátil, eu reconheço, mas não deveríamos nos deixar intimidar por isso”, disse Jones, numa clara referência às posições de Trump sobre Chagos e a Groenlândia.
Em sua rede social, o líder republicano escreveu que “o Reino Unido ceder territórios extremamente importantes é um ato de GRANDE ESTUPIDEZ e se soma a uma longa lista de razões de segurança nacional pelas quais a Groenlândia deve ser adquirida”.
Trump fez referência ao Arquipélago de Chagos ao intensificar sua retórica a favor da compra da Groenlândia, parte do Reino da Dinamarca, argumentando que, se os EUA não o fizerem, a Rússia ou a China o farão, algo que ele acredita representar um problema de segurança nacional para Washington.
“Surpreendentemente, nosso ‘brilhante’ aliado da Otan , o Reino Unido, planeja atualmente entregar a ilha de Diego Garcia, sede de uma base militar vital dos EUA, para Maurício, SEM MOTIVO ALGUM. Não há dúvida que a China e a Rússia notaram esse ato de total fraqueza”, escreveu o presidente dos EUA.
“Essas são potências internacionais que só reconhecem a força, e é por isso que os Estados Unidos, sob minha liderança, agora desfrutam de um respeito sem precedentes após apenas um ano”, enfatizou Trump. Ele concluiu sua mensagem instando a Dinamarca e seus aliados europeus a fazerem a coisa certa em relação à Groenlândia.
Londres argumentou que o acordo com Maurício era necessário porque as decisões de tribunais internacionais em favor das reivindicações de soberania de Maurício ameaçavam o futuro da base militar. Jones disse que o acordo sobre Chagos já estava fechado e que não via como poderia ser alterado.
“Conquista monumental”
As críticas contundentes de Trump ao acordo sobre Chagos surgiram enquanto a legislação para finalizar o tratado ainda está sendo debatida no Parlamento britânico e pegaram de surpresa o gabinete do premiê Keir Starmer, já que em maio do ano passado o secretário de Estado do EUA, Marco Rubio, havia saudado o mesmo acordo, afirmando que “o presidente Trump expressou seu apoio a essa conquista monumental”.
Na verdade, o Reino Unido havia adiado a assinatura do acordo para depois da posse de Trump, em janeiro de 2025, para dar ao governo americano tempo para examinar o plano.
Starmer havia construído um relacionamento sólido com Trump, tornando-se o primeiro líder a garantir um acordo para reduzir algumas tarifas, mas esse relacionamento foi abalado por divergências sobre a Groenlândia e agora pela polêmica em torno do Arquipélago de Chagos.
O líder britânico pediu nesta segunda-feira um diálogo calmo para evitar uma guerra comercial devido à Groenlândia, depois de Trump ter ameaçado impor novas taxas, instando o presidente dos EUA a respeitar as alianças.
Oposição britânica saúda intervenção de Trump
Os oponentes do acordo de Chagos saudaram a intervenção de Trump, que, segundo eles, poderá inviabilizar o acordo entre o Reino Unido e Maurício.
A líder conservadora britânica, Kemi Badenoch, declarou que pagar para entregar o Arquipélago de Chagos “não é apenas um ato de estupidez, mas uma completa autossabotagem”.
“Fui clara, e infelizmente, sobre esta questão, o presidente Trump está certo. O plano de Keir Starmer de entregar as Ilhas Chagos é uma política terrível que enfraquece a segurança do Reino Unido e representa uma entrega de nosso território soberano. E, para piorar a situação, enfraquece a nós e aos nossos aliados da Otan contra nossos inimigos”, acrescentou a política oposicionista, que avaliou que Starmer agora tem a oportunidade de mudar de rumo nessa questão.
O líder do partido Reform UK, Nigel Farage, escreveu na rede social X que Trump “vetou a entrega das Ilhas Chagos”.
Em maio de 2025, o governo assinou um acordo para devolver a soberania sobre o Arquipélago de Chagos às ilhas Maurício, após longas negociações iniciadas pela administração conservadora anterior, na sequência de um parecer consultivo de 2019 do Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) que determinou que o Reino Unido deveria renunciar ao controle das ilhas.
O Reino Unido concordou em pagar a Maurício anualmente 101 milhões de libras esterlinas (R$ 720 milhões) durante os 99 anos de duração do contrato de arrendamento da base de Diego Garcia.
Base de ataques no Iêmen e Afeganistão
Os sete atóis de Chagos, com mais de 60 ilhas, ficam no Oceano Índico, 500 km ao sul das Maldivas e a meio caminho entre a África e a Indonésia, com cerca de 4 mil pessoas ali estacionadas.
O Reino Unido deslocou à força até 2 mil chagossianos nativos no final da década de 1960 e na década de 1970 para estabelecer a base militar no atol de Diego Garcia, mas concedeu a soberania à antiga colônia de Maurício.
Operações recentes lançadas de Diego Garcia incluem bombardeios contra alvos houthi no Iêmen em 2024 e 2025, desdobramentos de ajuda humanitária para Gaza e ataques contra alvos do Talibã e da Al Qaeda no Afeganistão em 2001.
md/as (Efe, DPA, Reuters)
