Kristi Noem deixa posto de secretária de Segurança Interna após crescentes críticas à sua liderança no departamento, incluindo a condução da repressão imigratória do governo e da resposta a desastres.O presidente dos EUA, Donald Trump, demitiu nesta quinta-feira (05/03) a chefe do Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês), Kristi Noem, apelidada popularmente como “Barbie do ICE”. A decisão foi anunciada após crescentes críticas à gestão dela no departamento, incluindo a resposta a desastres e à condução da repressão imigratória do governo.

Foi sob sua gestão que o Serviço de Imigração dos Estados Unidos (ICE) matou dois americanos em meio às operações contra imigrantes em Minneapolis.

A demissão de Noem foi anunciada dois dias depois após ela ter sido sabatinada no Capitólio por membros do próprio Partido Republicano, além de democratas.

Segundo Trumo, Noem agora se torna “enviada especial para o escudo das Américas”, uma nova iniciativa de segurança que, segundo ele, se concentrará no Hemisfério Ocidental.

Noem “nos serviu bem e teve resultados numerosos e espetaculares (especialmente na Fronteira!)”, afirmou ele nas redes sociais.

Em seu lugar, Trump indicará para o posto de secretário de Segurança Interna o senador republicano de Oklahoma, Markwayne Mullin, descrito pelo presidente como um “guerreiro MAGA”. A nomeação do parlamentar estará sujeita à confirmação do Senado, onde os republicanos têm maioria.

Gestão controversa

Noem é a primeira secretária do gabinete a deixar o governo durante o segundo mandato de Trump. Sua saída encerra uma gestão tumultuada, marcada por táticas de fiscalização imigratória que enfrentaram protestos e processos.

Ela enfrentou ondas de críticas após as mortes de dois manifestantes em Minneapolis, baleados por agentes federais. A então secretária chegou a afirmar que as vítimas eram “terroristas domésticos”, mas vídeos dos incidentes divulgados posteriormente desmontaram a narrativa.

Sua permanência no cargo ficou ameaçada após as audiências no Congresso nesta semana, quando ela enfrentou fortes críticas inclusive de legisladores republicanos.

“O que vimos sob sua liderança foi um desastre”, disse o senador Thom Tillis, republicano da Carolina do Norte. “O que vimos foram pessoas inocentes sendo detidas que depois se descobriu serem cidadãos americanos.”

“Sob sua liderança, o Departamento de Segurança Interna ficou sem qualquer bússola moral ou respeito pelo Estado de Direito”, disse o senador Dick Durbin, democrata de Illinois.

Durbin e outros democratas pediram repetidamente que Noem se desculpasse pela morte dos dois americanos. Ela se tornou o rosto da escalada de detenções de cidadãos na tentativa de aumentar as deportações, que no ano passado ficaram abaixo da meta do governo de 1 milhão por ano.

Noem também participou pessoalmente de operações de fiscalização migratória em Nova York e visitou uma prisão de segurança máxima em El Salvador, onde imigrantes venezuelanos deportados pelo governo Trump estavam sendo mantidos sem acusações formais ou acesso a advogados.

Durante o período em que esteve no cargo, o número de mortes em centros de detenção de imigração atingiu o maior nível em duas décadas.

Campanha publicitária milionária

Outro ponto questionado foi uma campanha publicitária de 220 milhões de dólares (R$ 1.162) estrelada por Noem, que incentivava pessoas vivendo ilegalmente no país a deixarem os EUA voluntariamente.

Ela disse aos parlamentares que Trump tinha conhecimento prévio da campanha, mas o próprio presidente contestou a informação.

Os anúncios destacavam a imagem de Noem, incluindo uma cena em que ela aparece montada a cavalo no Monte Rushmore, em seu estado natal, Dakota do Sul. Os parlamentares a acusaram de promoção pessoal.

A ex-governadora de Dakota do Sul também foi pressionada pela forma como seu departamento executou o orçamento bilionário do órgão, paralisado há 20 dias.

Além da questão imigratória, o DHS foi acusado de má gestão no repasse de verbas emergenciais aprovadas pela Agência Federal de Gerenciamento de Emergências (Fema) e pela resposta do governo Trump a desastres ambientais.

md/gq (AP, AFP, Reuters)