15/01/2026 - 9:00
Presidente americano disse ter tido garantias de que Teerã desistiu de execuções, mas notícia sobre intenção de ataque contra regime iraniano levanta dúvidas sobre o real fim das tensõesApós dias de ameaças, Donald Trump sinalizou um recuo no plano de atacar o Irã ao afirmar nessa quarta-feira ter recebido informações de que o governo em Teerã interrompeu “a matança” nos protestos e que “não há planos para execuções” de manifestantes.
No entanto, informações de que o presidente dos Estados Unidos teria ordenado uma ofensiva “rápida e decisiva” ao regime dos aiatolás e o fechamento do espaço aéreo por parte do Irã, nesta quinta (15/1), ainda levantam dúvidas sobre a situação real da tensão entre ambos os países.
“Fomos informados de que a matança no Irã está parando, parou, está parando. E não há planos para execuções, ou uma execução”, afirmou Trump a jornalistas na Casa Branca, nessa quarta.
O presidente americano, que ameaçou reagir militarmente à repressão do regime dos aiatolás aos protestos, havia dito anteriormente que empreenderia “uma ação muito contundente” se Teerã optasse por executar detidos.
Trump acrescentou que a informação sobre a pausa na repressão aos manifestantes foi garantida por uma fonte fidedigna, mas que ainda é preciso confirmá-la. O republicano lembrou que quarta-feira “seria o dia das execuções” e que, “se elas ocorrerem, todos ficaremos muito incomodados”.
O Irã, por sua vez, negou que Erfan Soltani, um manifestante detido no sábado durante os tumultos no país, tenha sido condenado à morte e possa ser executado, como haviam denunciado Washington e organizações de defesa dos direitos humanos.
“Se for considerado culpado, ele será condenado a prisão, pois a lei não prevê a pena de morte para estas acusações”, disse a agência de notícias do Judiciário iraniano (Mizan). Soltani, de 26 anos, está detido na prisão de Karaj, perto de Teerã, e é acusado de realizar manifestações contra a segurança nacional e propaganda contra o regime, segundo a Mizan.
A organização não governamental de defesa dos direitos humanos Hengaw, com sede na Noruega, citando a família do jovem, declarou que a execução Soltani foi adiada. A entidade alertou, no entanto, que há “sérias e persistentes preocupações” sobre a situação dele.
A mesma ONG atualizou na terça-feira para ao menos 3.428 o número de manifestantes mortos nos 18 dias de protestos contra o governo.
As manifestações surgiram impulsionadas pela piora das condições econômicas no país e pela desvalorização do rial, a moeda nacional iraniana. Mas, rapidamente, os protestos assumiram um caráter político, com slogans contra o regime dos aiatolás. O governo reconheceu “muitas mortes”, sem divulgar números.
A repressão foi acompanhada por um apagão digital. O bloqueio da internet imposto por Teerã reduziu drasticamente a visibilidade das manifestações e dificultou a organização dos protestos, que perderam força nos últimos dias.
Ataque “rápido e decisivo”
Há temor, no entanto, de que Trump possa repetir a mesma estratégia de junho de 2025, quando atacou instalações nucleares no Irã mesmo após ter dito, dois dias antes, que uma ofensiva seria decidida “dentro de duas semanas”.
Também nessa quarta-feira, a emissora NBC News informou que o presidente disse a seus assessores que deseja que qualquer ação militar contra o Irã desfira um golpe “rápido e decisivo” ao regime, sem que se prolongue por semanas ou meses.
O Pentágono teria preparado opções para atingir esse objetivo, mas assessores alertaram sobre riscos de uma resposta iraniana, incluindo ataques a bases americanas no Oriente Médio.
De acordo com funcionários do governo citados sob anonimato pela emissora, Trump teria expressado que, “se algo for feito, quer que seja definitivo”, embora seus assessores ainda não tenham garantido que o regime colapsaria rapidamente após um possível ataque militar.
O receio de um novo conflito gerou uma reação do ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi. O chanceler alertou, nesta quarta-feira, Trump a “não cometer o mesmo erro” de junho de 2025 e defendeu uma saída diplomática.
“Você sabe, se você tentar uma experiência fracassada, obterá o mesmo resultado”, afirmou ele à Fox News. Araghchi disse que o Irã se mostrou estar disposto a negociar, mas que foram os Estados Unidos que abandonaram a diplomacia e optaram pela guerra e que quer retomar as conversas.
Ele reiterou que o Irã mantém o compromisso de não desenvolver armas nucleares, embora tenha deixado claro que não está disposto a renunciar ao enriquecimento de urânio com fins pacíficos, o que ele classificou como um “direito legítimo” no marco do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP).
Em junho de 2025, os Estados Unidos bombardearam várias instalações nucleares no Irã em uma operação ordenada por Trump, o que marcou uma das maiores escaladas entre ambos os países nos últimos anos e derivou na interrupção dos contatos diplomáticos, em um contexto de crescentes tensões pelo programa nuclear iraniano.
Durante a entrevista, o chanceler iraniano insistiu que Teerã tem o controle sobre as manifestações contra o governo ocorridas nas últimas semanas e que o clima de violência diminuiu.
Irã fecha o espaço aéreo
O governo do Irã também notificou, na madrugada desta quinta-feira, o fechamento de seu espaço aéreo durante pouco mais de duas horas, segundo a página de rastreamento de voos Flightradar24.
Segundo a notificação, o período do fechamento ocorreu de 19h45 às 21h30 de quarta-feira, no horário de Brasília. As imagens do Flightradar24 mostraram o espaço aéreo iraniano praticamente sem registro de voos.
A notificação iraniana especificou que o fechamento valia para “todos os voos”, exceto os internacionais de e para o Irã que tenham permissão prévia das autoridades do país.
fcl/md (DPA, AFP, Reuters, AP, EFE, Lusa, ots)