Ataques russos derrubaram eletricidade e aquecimento para centenas de milhares de pessoas. Moradores recorrem a improvisações, mudança de cidade e redes de solidariedade.Os moradores de Kiev sentem há três semanas os efeitos dos massivos ataques russos à infraestrutura energética da Ucrânia, que derrubaram o sistema de aquecimento de casas e estabelecimentos. A capital sofre com uma onda contínua de frio intenso, com temperaturas negativas de dois dígitos há quase duas semanas.

Apesar das negociações de paz entre Rússia, Ucrânia e Estados Unidos, o Kremlin conduziu novos ataques massivos não só na capital, como também em outras regiões da Ucrânia.

Houve vítimas civis e novos graves danos à infraestrutura de fornecimento de energia. De acordo com o vice‑chefe de governo Olexij Kuleba, 800 mil pessoas estavam sem eletricidade em Kiev no sábado (24/01).

Parte dos moradores começou a deixar a capital. “Como não tínhamos eletricidade, aquecimento ou água, meu marido, meus dois filhos e eu nos mudamos para a casa de campo dos meus pais, e meu pai também veio para cá”, contou ela à DW.

A casa tem um aquecedor a gás e, no jardim, é possível ligar um gerador a diesel. “Aí temos luz, água e calor. Tiramos a água de um poço. Quando o gerador está funcionando, temos eletricidade e as bombas trabalham”, explica.

Anastasia é esteticista e tem horários flexíveis, geralmente conforme sua clientela. Agora está de férias. “Meu marido é engenheiro de energia e precisa ir a Kiev todos os dias. O trajeto é longo e difícil, porque a rodovia está congelada. Ele leva até duas horas para chegar ao trabalho”, diz.

Hotéis oferecem desconto

A escritora e tradutora ucraniana Tamara Horicha Sernja também deixou a capital com os filhos. “Vi no Facebook uma mulher oferecendo 50% de desconto em seu hotel na região de Lviv para pessoas de Kiev. Ela cobra cerca de 900 hrívnias por dia (aproximadamente R$110) por adulto, com três refeições incluídas. No dia seguinte, já arrumamos nossas coisas e partimos”, conta.

As férias de inverno da maioria das instituições de ensino da capital foram prolongadas até 1º de fevereiro. O governo espera assim redistribuir a energia economizada para as áreas residenciais.

Como a DW observou, as salas de aula das universidades estão vazias, mas os dormitórios não. “A maioria dos estudantes foi para casa porque é período de férias. Só ficam aqueles que têm emprego em Kiev”, disse a diretora de um dormitório da Universidade de Transportes, que preferiu não ser identificada.

Segundo ela, o fornecimento de eletricidade é problemático. Mas água e aquecimento já voltaram aos dormitórios. “Depois do bombardeio russo, ficamos 28 horas sem eletricidade e sem aquecimento,” relata.

Ficar ou partir?

Cerca de 600 mil dos 3,6 milhões de habitantes de Kiev deixaram a cidade desde os ataques russos iniciados no último 9 de janeiro, disse o prefeito à AFP, com base no número de celulares ativos na cidade.

A administração militar de Kiev, porém, não confirma essa estimativa. “Se tantos consumidores de energia tivessem ido embora, a situação de abastecimento provavelmente não seria tão crítica”, disse a porta‑voz Kateryna Pop na televisão ucraniana.

Mas Roman Nizowytsch, diretor de pesquisa do think tank DiXi Group, discorda. “O consumo de eletricidade realmente pode ser usado como indicador. Mas não sei se isso é significativo no momento, porque o fornecimento é muito irregular”, afirma à DW. “Assim que a eletricidade volta, há consumo excessivo, porque as pessoas imediatamente lavam roupa e cozinham.”

Entre aqueles que tentam enfrentar os problemas sem sair de Kiev está Anja Syrotenko. A jovem vive em um prédio alto e cuida sozinha de seu bebê de três meses desde que o marido foi convocado para o serviço militar.

“Moro no 15º andar. Quase não há eletricidade, e sem eletricidade, não há água”, disse à DW. Como seu fogão não funciona sem energia, ela comprou um fogareiro de camping a gás. “Com ele posso fritar ovos e aquecer água para lavar o bebê. Ainda bem que o bebê está sendo amamentado.”

Ajuda aos mais vulneráveis

Já Marta Semenjuk, que cria uma filha pequena com o marido em Kiev, não tem aquecimento funcional em seu prédio há semanas. Para se aquecer, o casal recorre a um forno a gás. “Quando há eletricidade, colocamos um ventilador para espalhar o calor pelo apartamento”, conta.

Ela não quer levar a filha de volta ao jardim de infância, que permaneceu aberto. A menina adoeceu de bronquite depois de frequentar a escola sem aquecimento.

As autoridades de Kiev oferecem refeições quentes diariamente para os mais vulneráveis. Muitos voluntários também ajudam as pessoas que não podem se locomover.

“Levamos refeições quentes com nossos carros diretamente para os apartamentos onde vivem idosos e pessoas com deficiência,” relata Mykola Djatschenko, líder de uma organização de ajuda. “Eu entrego cerca de 115 refeições por semana.”

Danos até a primavera

Enquanto isso, técnicos ucranianos trabalham para restaurar os sistemas de eletricidade, água e aquecimento. A previsão é que demore até duas semanas para reconectar toda a cidade.

No momento, pequenas usinas de calefação estão suportando a maior parte da carga. Mesmo quando o aquecimento voltar, não poderá funcionar com capacidade total, explicou Roman Nizowytsch, do centro de pesquisas DiXi Group, à DW.

Em prédios onde tubos ou radiadores estouraram devido ao congelamento da água, o especialista acredita que não haverá aquecimento até a primavera, em março. Ele teme que, nesses casos, seja necessário substituir completamente os sistemas de calefação de blocos residenciais inteiros.