Para fazer frente à hostilidade dos EUA, União Europeia tem concentrado esforços na conclusão de acordos comerciais, mas às vezes esbarra em questões internas, como no caso do Mercosul.Ao longo dos últimos 12 meses, países ao redor do mundo entraram em pânico com os tarifaços ou as ameaças de guerra comercial dos Estados Unidos . Os caprichos do presidente Donald Trump adicionaram instabilidade e um senso de urgência nos mercados.

A antiga ordem comercial global desapareceu, dando lugar a novos arranjos comerciais entre os países.

Nas manchetes fala-se muito sobre a China, mas os vizinhos e maiores parceiros comerciais dos EUA, México e Canadá, não foram poupados.

Do outro lado do Atlântico, a União Europeia também tem passado por uma montanha-russa de tarifas e está questionando parcerias de longa data. O desprezo que Trump demonstrou pelos parceiros europeus no Fórum Econômico Mundial em Davos acendeu mais um forte alerta.

A imagem de parceiro comercial confiável

Para contrabalançar a hostilidade dos EUA e mostrar que o bloco é um parceiro comercial confiável e uma alternativa aos Estados Unidos, a UE tem tentado fechar acordos que estão em andamento há muito tempo.

Mas acordos comerciais são notoriamente complexos e levam tempo para entrarem em vigor, mesmo com vontade política.

Em 17 de janeiro, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, foi a Assunção, no Paraguai, para assinar o acordo de livre comércio entre a UE e o Mercosul .

O acordo entre os 27 membros do bloco europeu e Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai abrange um mercado de 700 milhões de pessoas. Uma vez em vigor, será uma das maiores zonas de livre comércio do mundo.

“Estamos enviando uma mensagem muito clara ao mundo de que os países do Mercosul e da União Europeia são a favor de tarifas baixas, de um comércio tranquilo, de mais qualidade e melhores preços para nossos consumidores”, disse o comissário de Comércio da UE, Maros Sefcovic, à DW, após a assinatura.

Mas, só quatro dias depois, o Parlamento Europeu suspendeu o acordo ao votar por um longo processo de revisão pelo Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE).

Mesmo que partes do acordo sejam provisoriamente promulgadas, a decisão dos europarlamentares é um grande golpe para as pretensões comerciais da UE e cria o risco de os parceiros sul-americanos se retirarem do acordo em protesto.

Nova tentativa na Índia

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, parece ter tido mais sorte na cúpula UE-Índia desta terça-feira (27/01), em Nova Délhi. As duas partes finalizaram um acordo comercial histórico após quase duas décadas de negociações intermitentes, iniciadas em 2007, interrompidas em 2013 e retomadas em 2022.

O acordo permitirá que a Índia abra seu vasto e protegido mercado, o mais populoso do mundo, ao livre comércio com a UE, que já é seu maior parceiro comercial. Esse pacto compreende um mercado de 2 bilhões de pessoas e um quarto do Produto Interno Bruto (PIB) global.

O acordo prevê eliminar ou reduzir tarifas em 96,6% das exportações de bens da UE, uma abertura que poupará às empresas europeias cerca de 4 bilhões de euros anuais em impostos de importação e permitirá duplicar as exportações de produtos para o gigante asiático até o ano de 2032.

“Pessoas em todo o mundo estão chamando este de a ‘mãe de todos os acordos'”, gabou-se o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi.

A UE leva a sério seus compromissos

Como segundo maior mercado importador do mundo, a União Europeia não deveria ser um parceiro altamente cobiçado?

O pesquisador Peter Chase, do escritório de Bruxelas do think tank americano German Marshall Fund, disse à DW que muitos países veem a UE como mais estável e confiável do que os Estados Unidos. “A UE é um bom parceiro de negociação, pois leva a sério os compromissos que assume em seus acordos comerciais”, diz Chase. “E quer de fato construir novas relações comerciais com muitos países.”

Ainda assim, prazos longos e regras de ratificação complicadas podem atrapalhar. Interesses políticos também podem criar obstáculos, disse Chase, cujo trabalho se concentra nas relações econômicas da União Europeia com países terceiros.

O acordo Mercosul-UE é um exemplo de como uma minoria pode fazer pressão e retardar o avanço. Essa minoria é liderada pela França, qu está preocupada sobretudo com o impacto da concorrência de produtos de fora sobre a agricultura francesa.

UE acumula acordos

A UE já tem acordos comerciais preferenciais com 76 países e demonstrou renovado interesse em aderir ao chamado Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica (CPTPP), um bloco de livre comércio de 12 nações da Ásia e da América que substituiu a Parceria Transpacífica (TPP) depois da saída dos Estados Unidos. Até o momento, o Reino Unido é o único membro europeu.

Em 2025, a União Europeia conseguiu negociar uma atualização de seu acordo comercial com o México e finalizou as negociações para um acordo de comércio e investimento com a Indonésia.

Acordos com a Malásia, as Filipinas e os Emirados Árabes Unidos estão em andamento.

Além disso, o Acordo de Comércio e Cooperação UE-Reino Unido será revisto este ano. Essa será a primeira revisão completa do tratado desde que entrou em vigor, em 2021. Embora a auditoria tenha como objetivo apenas analisar a implementação, existe a esperança de que ela possa ajudar a melhorar uma relação tensa e servir de trampolim para uma cooperação mais estreita.

E a OMC?

Chase avalia que há algo mais urgente para a UE do que outro acordo comercial: a revitalização da Organização Mundial do Comércio (OMC). Embora a liberalização do comércio seja algo positivo, o que o mundo precisa é do restabelecimento do Estado de Direito, afirma.

“Somente a UE pode ajudar a construir a coalizão de países necessária para isso”, diz Chase, o que permitiria fazer frente ao “descumprimento dos compromissos assumidos pelos Estados Unidos e à recusa de longa data da China em cumprir as promessas que fez quando aderiu”.