Análise publicada na revista The Lancet avaliou 43 estudos envolvendo centenas de milhares de casos e concluiu que o medicamento é seguro quando usado corretamente, contrariando afirmações de Donald Trump.O paracetamol é um medicamento seguro para ser consumido durante a gravidez e não gera risco de desenvolvimento de autismo no bebê. A conclusão compõe estudo publicado neste sábado (17/01) na revista britânica The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health e contrasta com alegações do presidente dos EUA, Donald Trump.

“O paracetamol é seguro durante a gravidez quando usado corretamente”, diz a autora principal do estudo, Asma Khalil, professora de obstetrícia e medicina materno-fetal na City St George’s, Universidade de Londres.

“A principal mensagem é de tranquilização: quando usado conforme recomendado, as melhores evidências disponíveis não sustentam uma relação causal com autismo, TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade) ou deficiência intelectual.”

Khalil conta que passou a ser questionada por suas pacientes sobre o analgésico – também conhecido como acetaminofeno – depois que Trump disse às mulheres grávidas para não tomarem o medicamento. Em uma coletiva de imprensa, o presidente culpou o paracetamol por uma “epidemia de autismo” e disse que as mulheres deveriam “aguentar firme” no caso de dor de cabeça ou febre.

Na ocasião, grupos médicos nacionais e internacionais criticaram as declarações, afirmando que não eram baseadas em evidências científicas. O paracetamol é o único analgésico considerado seguro para mulheres grávidas, e os médicos já recomendam seu uso com cautela.

Sem tratamento, condições de dor podem ser arriscadas tanto para as gestantes quanto para seus bebês. Segundo os pesquisadores, doenças não tratadas durante a gravidez como a febre, em particular, tem sido associada a abortos espontâneos, malformações congênitas, partos prematuros e transtornos do desenvolvimento neurológico.

Um porta-voz do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA disse, em resposta à nova análise, que “muitos especialistas expressam preocupação com o uso de acetaminofeno durante a gravidez”.

Estudos levam em conta fatores genéticos

O objetivo da nova análise foi a de revisar estudos recentes que apresentaram conclusões conflitantes sobre se o uso durante a gravidez poderia criar riscos para o feto em desenvolvimento.

Um estudo de 2024, na Suécia, por exemplo, não encontrou relação causal com transtornos como autismo, enquanto uma revisão de 2025 feita por pesquisadores dos EUA sugeriu uma possível ligação. Eles aconselharam que mulheres grávidas continuem usando acetaminofeno quando necessário, na menor dose possível e pelo menor período possível.

Os pesquisadores europeus realizaram uma revisão sistemática e uma meta-análise de dados existentes, identificando 43 estudos que foram avaliados quanto à qualidade e viés usando uma ferramenta padrão.

A equipe deu atenção especial a estudos que analisaram crianças nascidas da mesma mãe que tomou paracetamol em uma gravidez, mas não em outra. Esses trabalhos levam em conta fatores genéticos compartilhados e ambientes familiares que poderiam estar associados ao autismo ou a outras condições analisadas, disse Khalil.

Houve apenas três trabalhos publicados desse tipo, mas eles foram grandes, abrangendo mais de 260 mil crianças avaliadas para autismo e cerca de 335 mil e 405 mil para TDAH e deficiência intelectual, respectivamente.

Análise considera viés de trabalhos anteriores

Tais investigações não mostraram ligação significativa entre o uso do medicamento e o desenvolvimento dos transtornos estudados. Isso permaneceu verdadeiro quando os resultados de todos os estudos de alta qualidade avaliados foram combinados, segundo os autores.

Khalil afirmou que grande parte dos trabalhos que apontaram uma possível ligação, incluindo a revisão americana de 2025, estava sujeita a vieses ou fatores de confusão que a revisão de sua equipe tentou levar em conta.

Em qualquer cenário, os medicamentos só devem ser tomados sob orientação profissional, destaca a Associação Alemã de Ginecologistas. Outros fármacos, como ibuprofeno, diclofenaco ou opioides, só podem ser usados durante a gravidez com restrições significativas não são alternativas melhores que o paracetamol, destaca Wolfgang Paulus, da Clínica Universitária de Ginecologia de Ulm.

No entanto, o medicamento não é inofensivo, e está associado principalmente a riscos para o fígado.

O que causa o autismo?

Segundo a literatura médica, o transtorno do espectro autista decorre de alterações no desenvolvimento do cérebro durante o início da vida. É consenso que cerca de 80% dos casos de autismo podem estar ligados a mutações genéticas hereditárias, ainda que a causa exata do transtorno ainda não foi exaustivamente identificada.

Os cientistas já identificaram que mutações em determinados genes, como o MECP2, afetam a estrutura e conectividade dos neurônios, mas a evidência de que estas alterações estejam diretamente ligadas ao autismo não é clara.

gq (Reuters, DW, DPA, AP)