29/11/2025 - 13:05
Maior de sua classe, embarcação rompeu com lógica de antecessores ao apresentar inovações que perduram até hoje. Palco de um dos maiores desastres da Marinha americana, foi vendido a um centavo de dólar em 1993.Quando o então presidente americano Lyndon Johnson (1963-1969) decidiu que os EUA apoiariam o iminente golpe militar brasileiro em 1964, a ordem foi empregar o maior e mais moderno porta-aviões da Marinha na empreitada. O USS Forrestal deveria zarpar de Norfolk, no estado da Virgínia, acompanhado de seis destróieres rumo ao Atlântico Sul. No caminho, receberia o apoio de navios petroleiros aportados em Aruba e coletaria armamentos “para controle de massas” em Porto Rico. O destino oficial era o porto de Santos, em São Paulo.
Assim partira o USS Forrestal, apelidado pela imprensa especializada de o “porta-aviões que quebrou todas as regras”, nas primeiras horas de 1º de abril de 1964, quando o golpe já se iniciava. O objetivo da força-tarefa Brother Sam era acompanhar à distância a insurgência contra o governo do presidente brasileiro João Goulart (1961-1964) e intervir com força máxima se houvesse resistência.
Mas, ao contrário da recente tentativa da Casa Branca de dar publicidade ao deslocamento de seu mais novo maior porta-aviões, o USS Gerald Ford, aos mares do Caribe, o avanço de seu antecessor rumo ao Brasil ocorreu sob sigilo. Seu papel no golpe militar só ficou conhecido em 1976, quando os EUA desclassificaram telegramas e telefonemas relacionados à operação. “Vamos ficar em cima de Goulart e nos expor se for preciso”, diz Johnson em uma das ligações divulgadas.
As tropas golpistas que marcharam de Juiz de Fora rumo ao Rio de Janeiro, porém, não encontraram a batalha que esperavam ao chegar no antigo estado da Guanabara e o apoio americano deixou de ser crucial. Ao final do dia 2 de abril, o golpe estava consumado e o major George Brown, comandante da força-tarefa, recebeu ordem para suspender a operação.
“O Forrestal concentrava o que havia de mais moderno em termos de porta-aviões naquele momento. Uma embarcação com dezenas de aeronaves de ataque garantiria uma projeção de poder muito superior ao que a Força Aérea brasileira poderia resistir caso optasse pela legalidade”, afirma o professor de Geografia Vinicius Teixeira, da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat).
O peso militar do navio revela a musculatura que Washington se preparava para acionar. À época, a embarcação de 325 metros comprimento, equivalente a três campos de futebol, já era considerado uma revolução tecnológica e peça-chave da Marinha americana. Em seus 38 anos de operação, ele foi empregado em combates na Líbia e no Vietnã, e se tornou palco de um dos maiores desastres de fogo amigo da história militar americana.
Renovação da Marinha americana
Quando a quilha do Forrestal foi assentada no estaleiro da cidade de Newport News, no estado da Virgínia, em 14 de julho de 1952, iniciava-se a construção do primeiro modelo da era dos superporta-aviões, de tamanho monumental e projetados para operar dezenas de aeronaves a jato em grande escala.
O navio entrou em operação três anos depois, e liderou a renovação da Marinha americana em um momento de desarranjo. Segundo levantamento do Instituto Naval dos EUA, uma associação independente, a corporação havia enxugado seu contingente de 6,7 mil navios e 3,5 milhões de homens ao fim da Segunda Guerra, para 634 navios e meio milhão de militares em 1950.
Naquele ano, a invasão da Coreia do Norte à Coreia do Sul escancarou o despreparo dos EUA tanto para apoiar os aliados sul-coreanos quanto para defender Formosa (atual Taiwan). O Departamento de Estado americano decidiu pela construção de um porta-aviões capaz de oferecer uma resposta tática mais robusta.
Inaugurado em outubro de 1955, o USS Forrestal recebeu o nome de James Forrestal, o primeiro secretário de Defesa dos EUA. Por isso, levava o slogan de “First in Defense”, ou “Primeiro na Defesa”. Mas sua designação oficial, CVA-59, trazia o “A” de ataque, indicando a função que poderia assumir nas décadas seguintes.
Novo convés, catapulta a vapor e sistema de pouso
Quando foi apresentado ao público após intensas revisões em seu projeto inicial, o barco virou símbolo do patriotismo americano exacerbado durante a Guerra Fria.
O novo modelo rompia de forma dramática com a lógica dos porta-aviões anteriores. A maior mudança estava em seu design, que aposentou o convés plano e implementou a pista de pouso angular reproduzida até hoje.
“A incorporação do convés inclinado, desenvolvido pelo capitão da Marinha Real, Dennis Cambell, em 1950–51, permitiu que os porta-aviões realizassem operações simultâneas de lançamento e recuperação de aeronaves”, diz publicação do Instituto Naval dos EUA. A organização também destaca que o novo desenho de um nariz fechado facilitava a operação em diferentes condições meteorológicas.
Outra inovação foi a implementação nativa de quatro catapultas a vapor. O sistema de lançamento de aeronaves, até então, era apenas adaptado às embarcações existentes, explica Vinicius Teixeira. À época foi anunciado que o barco podia carregar um recorde de 100 aeronaves.
“Essa classe de porta-aviões ganha ali uma dimensão que até então não havia sido pleiteada por nenhuma outra, tornando-se grandes embarcações de guerra. As maiores construídas até aquele momento.”
A inclusão de um novo sistema óptico de pouso a bordo do convés de voo, chamado de lente de Fresnel, também consolidou a fama do recém-lançado Forrestal. Nele, um feixe luminoso é direcionado à aeronave, que aparece ao piloto como um círculo amarelo e o ajuda a manter o curso e a inclinação ideal de planeio.
Aperfeiçoado, este é o mesmo sistema usado pelas novas gerações de superporta-aviões, como o USS Gerald Ford, que também possui um convés de dimensões semelhantes ao do Forrestal. A embarcação da década de 1950 era apenas oito metros menor que o modelo mais moderno, que tem 333 metros. Tais semelhanças levam muitos especialistas a considerar o Forrestal como o mais importante antecessor da atual geração de superporta-aviões.
Incêndio histórico e combates na Líbia
Nos anos seguintes, a embarcação liderou diversas missões da Marinha americana.
A maior parte de suas operações ocorreu no Mediterrâneo, onde, além de manobras militares, visitava inúmeros portos e permitia ao público subir a bordo e “observar o imenso poder que representava para a paz”, destaca o Comando responsável por pesquisa e divulgação da história e do patrimônio da Marinha dos EUA. Nessas ocasiões, o porta-aviões servia como uma vitrine que combinava poderio militar à propagação do estilo de vida americano: a aliança do soft power com o hard power dos EUA em plena Guerra Fria.
Mas a história da embarcação ficou marcada por ter sido palco, em 29 de julho de 1967, do segundo desastre mais mortal da Marinha dos EUA, quando o navio era empregado na Guerra do Vietnã.
Na ocasião, o foguete de um caça estacionado no convés foi acidentalmente disparado devido a uma falha no sistema elétrico, atingindo outra aeronave. O incêndio resultante detonou bombas AN-M65A1, com mais de dez anos de armazenamento, que estavam carregadas no navio. Em apenas quatro minutos, explosões em cadeia devastaram grande parte da ponte de voo.
O fogo matou 134 tripulantes e 161 ficaram gravemente feridos. Vinte e uma aeronaves foram destruídas e outras 40 danificadas. Investigações posteriores desmontaram teorias da conspiração sobre a tragédia e identificaram que houve violação parcial de procedimentos de segurança no manuseio dos foguetes. O incidente obrigou a Força a revisar suas normas de segurança e aprimorar treinamento de militares.
Em outro momento emblemático, o Forrestal foi empregado ao lado de outro porta-aviões, o USS Nimitz, em exercícios de “liberdade de navegação” no Golfo de Sidra. A região no Mar Mediterrâneo era reivindicada unilateralmente pela Líbia de Muamar Kadafi (1942-2011).
A presença das aeronaves americanas foi interpretada como uma provocação. Em 19 de agosto, após um dia de tensão crescente, dois caças líbios tentaram interceptar aviões dos EUA e chegaram a lançar um míssil, que falhou. A esquadra americana reagiu e abateu as duas aeronaves inimigas.O incidente foi o primeiro combate aéreo registrado pelos Estados Unidos após a Guerra do Vietnã e exacerbou a tensão com o regime de Kadafi.
Do golpe de 1964 à aposentadoria
Já o envolvimento do USS Forrestal no golpe brasileiro em 1964 é menos documentado devido ao caráter sigiloso da colaboração americana. Sua presença como navio-capitânia da frota que se deslocou ao Brasil fica clara nos documentos revelados apenas por siglas que indicavam a presença de seu comandante na operação.
Apesar da relutância do então secretário de Estado dos EUA, Dean Rusk, uma ligação gravada de seu vice, George Ball, ao presidente americano Lyndon Johnson sacramenta a ordem para o navio zarpar. “Decidimos seguir em frente e enviar uma força-tarefa para o Sul, sem compromissos”, diz ele.
“A Força Naval de combate foi ativada para exercício na costa sul do Brasil. O destino oficial é o Porto de Santos. Força naval composta por um porta aviões, destróieres e cruzadores de apoio. Em Porto Rico serão embarcadas 110 toneladas de munição, armas leves e gás lacrimogêneo para contenção e controle de massas”, afirma um dos telegramas revelados no documentário O dia que durou 21 anos, de Camilo Tavares.
As decisões eram majoritariamente tomadas com base nos relatos do então embaixador dos EUA no Brasil, Lincoln Gordon (1913-2009). A Casa Branca aguardava seu comando para definir o destino do porta-aviões.
“A força-tarefa do porta-aviões deve continuar em direção ao Atlântico Sul até que o embaixador declare que escalas em portos ou outras demonstrações de poder naval não são definitivamente desejadas”, diz um dos documentos. O Forrestal só interrompeu a trajetória após Gordon confirmar que não havia mais necessidade militar. A operação custou 2,3 milhões de dólares aos cofres americanos.
Após 38 anos de serviço, o navio foi desativado em 1993 e, duas décadas depois, acabou vendido pelo valor simbólico de um centavo de dólar, após várias tentativas fracassadas de transformá-lo em um “museu do mar, ar e espaço”. A empresa All Star Metals venceu a licitação para desmontar o navio e comercializar seus metais. O processo de desmonte foi concluído em 2015.
