05/04/2025 - 11:53
Imagens obtidas pelo NYT mostram que ambulâncias e outros veículos estavam claramente identificadas, contrariando versão de Israel. Ataque resultou na morte de 15 socorristas, cujos corpos foram encontrados em uma vala.Um vídeo recuperado do celular de um paramédico morto em um ataque israelense que matou outros 14 socorristas em Gaza contradiz o relato de Israel de que seus veículos que transportavam as equipes estavam sem luzes e se movimentavam de maneira “suspeita”.
O vídeo, com pouco menos de sete minutos e publicado pelo jornal americano The New York Times (NYT), mostra que as ambulâncias que transportavam os socorristas, vestidos com uniformes refletivos, e o caminhão de bombeiros que os acompanhava estavam claramente identificados e com as luzes de emergência acesas.
Entre os socorristas que morreram estavam oito funcionários do Crescente Vermelho Palestino, seis membros da agência de defesa civil de Gaza e um funcionário da agência da ONU para refugiados palestinos (UNRWA, na sigla em inglês).
O vídeo foi compartilhado com o jornal por um diplomata da ONU que pediu anonimato. O NYT afirma ter verificado a filmagem e ter concluído que foi gravada nas primeiras horas de 23 de março em Rafah, no sul de Gaza, onde ocorreu o ataque.
Os eventos ocorreram quando Israel ordenou a evacuação forçada do bairro de Tel al Sultan, em Rafah, que foi bombardeado pouco depois. O Crescente Vermelho mobilizou então duas ambulâncias para procurar os feridos e, após perder contato com uma delas, várias equipes de resgate foram enviadas, que também foram atacadas durante várias horas, segundo a ONU.
Os serviços de emergência não conseguiram acessar a área até quatro dias após o ataque, quando conseguiram recuperar o corpo de um funcionário da Defesa Civil. No domingo seguinte, em uma nova busca, equipes de resgate desenterraram outros 14 corpos no que o Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) descreveu como uma vala comum.
Nas imagens, os veículos param um ao lado do outro na beira da estrada e dois homens uniformizados saem. Momentos depois, há um intenso tiroteio. No vídeo, é possível ouvir as vozes de dois médicos. “O veículo, o veículo”, diz um deles. “Parece um acidente”, pontua outro. Uma série de tiros irrompe segundos depois e a tela fica preta.
No vídeo obtido pelo NYT, o paramédico que gravou o incidente pode ser ouvido dizendo: “Perdoe-me, mãe. Este é o caminho que escolhi: ajudar as pessoas”. Em seguida, tiros ecoam por cinco minutos, enquanto a imagem escurece. O homem pede perdão a Deus e diz que sabe que vai morrer.
Segundo o chefe da UNOCHA para a Palestina, Jonathan Whittall, cinco ambulâncias, além de um veículo da ONU e um caminhão dos bombeiros, foram “esmagados” e “descartados”. Alguns dos corpos foram encontrados com as mãos ou pernas amarradas e com ferimentos de bala na cabeça e no peito, de acordo com duas testemunhas.
Israel diz que examinará imagens
Na última quarta-feira, o Exército israelense admitiu que cobriu os corpos dos 15 paramédicos e socorristas “com panos e terra”, alegando que fez isso por acreditar que o resgate levaria tempo.
Após as mortes se tornarem públicas, Israel passou a insistir que havia “terroristas” nos veículos e que nove supostos terroristas teriam sido mortos, embora até agora tenha identificado apenas um, cujo nome não consta nas listas das vítimas publicadas pelo Crescente Vermelho e pela Defesa Civil de Gaza.
O Exército israelense ainda afirmou que seus soldados “não atacaram aleatoriamente” nenhuma ambulância. Um porta-voz militar, o tenente-coronel Nadav Shoshani, disse também que as tropas abriram fogo contra veículos que não tinham autorização prévia das autoridades israelenses e que estavam com as luzes apagadas.
Mas as imagens de vídeo parecem contradizer as alegações dos militares israelenses, pois mostram ambulâncias viajando com faróis e luzes de emergência claramente acesas.
Neste sábado, o Exército de Israel, após a divulgação do vídeo, disse que “examinará exaustivamente” as imagens do ataque que matou os 15 socorristas.
“O incidente ocorrido em 23 de março de 2025 está sendo investigado exaustivamente. Todas as alegações, incluindo a documentação circulante sobre o incidente, serão examinadas exaustivamente para entender a sequência de eventos e o manejo da situação”, disse um porta-voz militar israelense.
“Qualquer pessoa com informações ou documentação relacionada ao incidente está convidada a apresentá-las às Forças de Defesa de Israel para análise posterior”, acrescentou a fonte.
Reagindo ao vídeo publicado pelo The New York Times, autoridades do Hamas em Gaza disseram neste sábado que “estamos testemunhando um crime de guerra total, premeditado e deliberado, demonstrando um completo desrespeito ao sangue do pessoal médico e humanitário”.
Em uma declaração compartilhada pelo gabinete de imprensa do governo de Gaza, as autoridades do enclave pediram uma investigação internacional sobre o que aconteceu e o envio de equipes ao local para visitar a vala comum.
Além disso, exigiram que os responsáveis sejam levados ao Tribunal Penal Internacional (TPI).
jps (EFE, AFP)