Conversas do dono do Master interceptadas pela PF indicam que banqueiro se encontrou com o ministro Alexandre de Moraes, o senador Ciro Nogueira e o presidente da Câmara, Hugo Motta.O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o presidente da Câmara dos Deputados Hugo Motta (Republicanos-PB) foram citados pelo banqueiro Daniel Vorcaro em trocas de mensagens obtidas pela Polícia Federal (PF). As conversas indicam que o dono do Banco Master teria se encontrado com as autoridades nos últimos dois anos.

Ele também sugere que teve uma “ótima” conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o atual presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, em 2024.

As mensagens se encontravam no celular de Vorcaro e foram interceptadas no âmbito da Operação Compliance Zero. Elas embasaram a decisão do ministro do STF André Mendonça de ordenar a nova prisão do dono do Banco Master.

Os trechos usados por Mendonça em sua decisão indicam, segundo ele, a existência de uma estrutura informal denominada “A Turma”, responsável por ações de vigilância, intimidação e obtenção de dados de inimigos do banqueiro.

Contudo, mensagens obtidas pela imprensa mostram que Vorcaro também tinha acesso a autoridades nos Três Poderes. Parte desses arquivos foi compartilhada com a Comissão Parlamentar de Inquérito do INSS, no Senado, que avança sobre investigações do Master devido a supostas fraudes praticadas pelo banco na oferta de créditos consignados a aposentados.

Encontro com Alexandre de Moraes

No dia 19 de abril de 2025 Vorcaro afirmou à sua namorada, Martha Graeff, que iria se encontrar com Alexandre de Moraes – um mês após o Banco Regional de Brasília (BRB) anunciar a intenção de comprar o Master.

“Como assim amor. Ele está em Campos???? Ou foi pra te ver?”, perguntou Graeff. Ao que ele respondeu: “Ele tá passando o feriado”.

As mensagens não deixam claro o contexto dos encontros ou se Vorcaro dialogou diretamente com Moraes. Em outra conversa, do dia 24 de abril, ele afirma que discursou em um evento para magistrados do Supremo.

Dez dias depois, o banqueiro fez uma ligação por vídeo com Graeff. Ela pergunta “Quem era o primeiro cara?”. Vorcaro responde: “Alexandre Moraes”.

“Ele gostou da casa amor!?? Tá muito mais astral”, continuou a namorada.

Segundo a Folha de S. Paulo, o banqueiro preso também mantinha contato direto com Moraes.

O ministro ainda não se manifestou sobre as reuniões. Ele foi colocado nos holofotes do caso após o jornal O Globo revelar que o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci, assinara contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master para defender os interesses da corretora.

O jornal, mais tarde, afirmou que Moraes procurou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para tratar do caso Banco Master. O Estadão também indicou que o ministro ligou ao presidente do BC diversas vezes para discutir a venda da corretora ao BRB. Moraes nega que tenha realizado tais conversas.

Ciro Nogueira chamado de “grande amigo”

Outro citado de forma mais direta por Vorcaro nas conversas é Ciro Nogueira, chamado pelo banqueiro em 2024 de “grande amigo da vida”.

Em agosto de 2024, o dono do Master escreve à namorada que Ciro soltou um projeto de lei que “ajuda os bancos médios e diminui o poder dos grandes”.

Tratava-se de uma emenda apresentada por Ciro que estendia a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para investimentos de até R$ 1 milhão. Hoje, o sistema assegura até R$ 250 mil em caso de crise de liquidez de uma instituição financeira. Vorcaro tratava o FGC como a base do “modelo de negócios” do Master, que oferecia investimentos amparados pelo Fundo com retornos considerados inviáveis de serem alcançados com segurança. A proposta não saiu do papel.

Em outras mensagens, Vorcaro dá a entender que foi convidado para o casamento da filha de Nogueira.

A Polícia Federal também investiga se o senador estaria recebendo pagamentos de Vorcaro. Em uma das mensagens do banqueiro, ele ordena a transferência de valores a uma pessoa de nome “Ciro”, desta vez citado sem o sobrenome.

O parlamentar afirma que conversa com centenas de pessoas, o que não faz dele “próximo” aos interlocutores.

“Ciro Nogueira volta a destacar que está tranquilo quanto às investigações da Polícia Federal nas denúncias que envolvem o empresário, uma vez que não mantém nem nunca manteve qualquer conduta inadequada relacionada ao caso em apuração”, afirmou em nota. Sobre os supostos pagamentos, diz que acusação “é definitivamente uma mentira fabricada na tentativa de manchar” sua biografia.

Encontros com Motta e Lula

A quebra de sigilo telefônico de Vorcaro também mostrou que ele teria se encontrado com Hugo Motta, em 26 fevereiro de 2025, diz a Folha de S. Paulo. “Tô aqui em Brasília trabalhando amor. […] Tô num jantar na residência oficial com Hugo e seis empresários”, disse à namorada.

Em 20 de março, Vorcaro também cita que estaria recebendo em casa “Hugo” e Ciro” para conversar com “Alexandre”. As menções não acompanham sobrenome dos citados.

Antes de o caso Master explodir, Vorcaro se reuniu ainda com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em dezembro de 2024. A reunião já havia sido revelada pelo O Globo em março do ano passado. Em mensagem a Graeff, ele diz apenas que o encontro foi “ótimo”.

Segundo a Folha de S. Paulo, o encontro ocorreu no Palácio do Planalto, onde Vorcaro chegou acompanhado do ex-ministro da Economia Guido Mantega. Estiveram presentes os ministros da Casa Civil, Rui Costa, o de Minas e Energia, Alexandre Silveira, e Galípolo, que assumiria a chefia do Banco Central no mês seguinte. Na ocasião, Vorcaro teria reclamado para Lula sobre a concentração do mercado bancário.

gq/md (OTS)