15/01/2026 - 13:41
Desde suas origens utópicas até seus rivais movidos por inteligência artificial, “enciclopédia do povo” foi moldada por debates sobre neutralidade, especialização e o futuro do conhecimento compartilhado.Assim como a história humana é dividida em antes e depois de Cristo, não é exagero pensar que a história da internet também tenha um antes e depois: mais especificamente, da Wikipedia.
A enciclopédia colaborativa foi ao ar em 15 de janeiro de 2001, concebida por Jimmy Wales, um empreendedor da internet com visões libertárias; e por Larry Sanger, um filósofo que se tornou o primeiro editor-chefe da plataforma. A colaboração entre os dois durou pouco mais de um ano, mas as tensões geradas pelas diferenças de visão de ambos ainda marcam o projeto até hoje.
Desde a concepção, Wales imaginava a Wikipedia como algo radicalmente aberto, um lugar onde “qualquer pessoa no planeta” poderia contribuir e ter acesso livre à “soma de todo o conhecimento humano”.
Sanger, por outro lado, não acreditava que tal liberdade poderia garantir a neutralidade.
Essa divergência acabou por influenciar toda a história da enciclopédia digital.
Dos livros aos cliques
Até então, ter acesso ao conhecimento significava navegar por bibliotecas físicas e obras de referência, com especialistas e instituições atuando como guardiões das informações “oficiais”. A Wikipédia inverteu essa hierarquia.
Ela criou uma plataforma vasta e editada colaborativamente, na qual qualquer pessoa com conexão à internet poderia escrever ou revisar um artigo. Isso fez com que o paradigma saísse de uma autoridade especializada centralizada para um modelo mais descentralizado e impulsionado pela comunidade, que também cita fontes produzidas por especialistas.
O crescimento que se seguiu foi estrondoso. Em 2002, a Wikipédia em inglês – principal idioma da plataforma – tinha cerca de 25 mil verbetes; em 2006, ultrapassou um milhão. Hoje, são mais de sete milhões. Já a Wikipedia em português tem 1,1 milhão de artigos.
Impulsionado pelas pessoas, dividido pela filosofia
A Wikipedia existe atualmente em mais de 300 idiomas, com contribuições de milhares de editores voluntários.
Ninguém é “dono” de um artigo, e todas as contribuições precisam seguir os princípios de neutralidade, verificabilidade e estarem baseadas em fontes confiáveis. Os editores discutem alterações nos fóruns da enciclopédia até chegar a um consenso. Alguns casos mais sérios são levados ao Comitê de Arbitragem, administrado pela comunidade da Wikipedia.
Esse modelo reflete a crença de Wales de que um patrimônio comum de conhecimento global possa ser construído coletivamente. “A Wikipédia não é um lugar muito confortável para extremistas”, disse ele ao The Guardian em 2025. “Se você quer reclamar e ser super tendencioso, então vá em frente, escreva seu próprio blog.”
Para Wales, a neutralidade é garantida ao se basear os artigos em fatos. “O verbete sobre Hitler não precisa ser um discurso inflamado contra ele. Basta escrever o que ele fez, e isso já é uma condenação contundente.”
Já Sanger, que escreveu as primeiras diretrizes de neutralidade da Wikipédia, há muito defende que a abertura por si só não impede que o conteúdo seja tendencioso. Para ele, quem escreve um artigo deve ser, de preferência, especialista no assunto.
“A neutralidade é totalmente possível”, afirma ele à DW, acrescentando que o padrão ouro é quando “não dá para saber o que a pessoa pensa sobre qualquer assunto controverso”. “E não vejo como seria possível, em última instância, que um projeto como a Wikipedia chegasse sequer perto da neutralidade sem o envolvimento de especialistas que também estejam comprometidos com a neutralidade.”
Sanger também argumenta que apenas aqueles “que pensam de uma determinada maneira” tenham permissão para editar a Wikipédia, descrevendo esse perfil como “global, acadêmico, secular e progressista”.
Disparidade de gênero e ‘espiral de destruição’
De acordo com a Fundação Wikimedia, o número de editoras mulheres na enciclopédia digital representa entre 10% e 20% do total. Artigos de personalidades femininas famosas, seus trabalhos ou pesquisas continuam ausentes, o que motivou a iniciativa “Mulheres em Vermelho”, lançada em 2015, com o objetivo de eliminar essa disparidade de gênero.
Cada idioma da Wikipedia é uma enciclopédia diferente, com sua própria comunidade de editores. Isso significa que um artigo que existe em hindi pode nunca ser escrito em inglês e vice-versa. Ferramentas como o Wikidelta ajudam a mostrar essas lacunas, mapeando quais tópicos aparecem em apenas uma língua.
No entanto, essa divisão pode gerar problemas. Atualmente, a Wikipedia alimenta grande parte das ferramentas digitais usadas pelos usuários diariamente. Grandes modelos de linguagem (LLMs) são treinados com o conteúdo da plataforma, e textos ou traduções gerados por IA estão fluindo de volta para Wikipedias em idiomas menos comuns.
A fragilidade desse ciclo ficou evidente com a edição da Wikipedia na Groenlândia. Em 2025, o único editor no idioma groenlandês da enciclopédia pediu o fechamento do site após a versão ser inundada por erros de IA – um problema apelidado por especialistas de “espiral de destruição”. Entre outros motivos, ele citou o “risco de danos à língua groenlandesa”.
Mais frequente que “fazer xixi”
As peculiaridades da Wikipedia também ultrapassam os limites do próprio site. Sua tag “citação necessária”, antes um simples pedido de verificação, tornou-se sinônimo de afirmações duvidosas. Jogos online como o Wikiracing transformaram a enciclopédia em um esporte, no qual jogadores começam uma disputa dentro de um artigo e “correm”, usando apenas hiperlinks, para chegar a uma página totalmente diferente com o mínimo de cliques e o mais rápido possível.
Além de ser há muito tempo a referência para pesquisas, a Wikipedia também está presente nas rotinas diárias. A enciclopédia digital resolve discussões à mesa de jantar, orienta comentários esportivos e leva os leitores a se perderem em incursões infinitas nos chamados “buracos de coelho” até altas horas da madrugada. Talvez a estilista Diane von Fürstenberg tenha captado melhor a onipresença da plataforma quando brincou com Jimmy Wales, dizendo que “todos nós usamos a Wikipedia com mais frequência do que fazemos xixi”.
Grokipedia: um concorrente à altura?
Mas mesmo uma plataforma integrada à vida cotidiana não está imune a perturbações. Em 2025, a empresa xAI, de Elon Musk, lançou a Grokipedia, uma enciclopédia gerada por IA baseada no modelo de linguagem Grok.
Ela estreou com quase 885 mil artigos, autodenominando-se uma “alternativa verdadeira e independente” à Wikipedia – ou, como Musk a chama, “Wokipedia” por ser, segundo ele, “extremamente tendenciosa à esquerda”. No caso da enciclopédia de Elon Musk, alguns verbetes são gerados inteiramente pelo Grok; outros são retirados da Wikipedia – às vezes com uma leve edição, outras vezes copiados quase integralmente.
Larry Sanger considera essa uma mudança significativa. “Pela primeira vez na história, é possível conversar com um LLM e ele irá editar um artigo da enciclopédia”, disse ele à DW. “Você não está enviando a edição para um ser humano. Você está enviando para uma máquina controlada por uma empresa”, o que significa obter respostas mais rapidamente.
Ele acredita que a Grokipedia poderá eventualmente superar o projeto que ele ajudou a criar: “Há uma grande chance de que a Grokipedia se torne uma enciclopédia melhor do que a Wikipedia depois de algum tempo.”
Jimmy Wales, por sua vez, expressou ceticismo quanto à capacidade do LLM de produzir conteúdo enciclopédico. “Ainda não se sabe se ele será um concorrente importante ou significativo”, disse ele, à Reuters, no final de 2025.
